Como “caí” no blog; História duma amizade ibérica

        (Traducción al final… pero vale la pena intentarlo en directo)                        

   Há um ditado popular antigo, em Portugal, que diz: “De Espanha nem bom vento, nem bom casamento”! (Isto queria dizer que tudo o que de lá vinha, nomeadamente os casamentos reais, podiam pôr a independência nacional em risco!)

  É um mau começo, eu sei mas, eu sou dos que gostam de espanhóis. Passo a explicar. O meu pai era de uma aldeia do concelho de Elvas, paredes meias com Espanha, 20 km para lá chegar.

  Falava bem e lia periódicos em língua castelhana. Cedo me familiarizei com a cultura dos  nuestros hermanos. Estudei medicina, preferindo as traduções espanholas dos enormes tratados, muito próximas do português. E a tia Carmen, mulher do tio Francisco, era espanhola!

  Pois bem, conheci o Carlos (do blog) e o Angel, o seu grande amigo de sempre, durante uma estada de verão com uma amiga, em Londres, em 1973, há quase 50 anos. Ficámos num aldeamento de estudantes, como nós, no mesmo apartamento. Havia, porém, uma particularidade: para eles saírem do quarto, tinham de passar pelo nosso! Como saíam cedo para trabalhar, punha-se a questão, ou saíam silenciosamente para não nos acordar mas, com o risco de estarmos meio despidas, ou batiam à porta interrompendo um eventual merecido sono.

  Já não me lembro como foi resolvido mas, a proximidade trouxe-nos convívio, conversas animadas, familiaridade.

  Entretanto, milagre: eles tinham guitarras e eu cantarolava umas coisas!  Trocávamos canções, eu cantava muito, músicas de Zeca Afonso, que era um cantautor de intervenção, perseguido pelo regime, preso, suspenso de sua profissão de professor, muito conhecido também pela sua belíssima voz de tenor. E eu, deles aprendi “Ai Portugal porque te quiero tanto…” e outras quantas.

  Enfim, depois passeios pelos parques, pequenas aventuras como velejar pelo Tamisa e, sempre muita alegria, muito riso, muita brincadeira e muita fotografia para testemunhá-lo

  O fim das férias não nos fez perder o contacto, pois havia muitas dessas fotografias para trocar. Mantivemos uma bem disposta correspondência, por esse ano, depois o outro.

  Entretanto ocorreu em Portugal, a tão desejada mudança de regime político, com o golpe militar dos Capitães, na noite de 25 de Abril de 1974, que pôs fim a um regime repressivo, autoritário, desigual e colonial, que se mantinha desde 1960 em guerra contra os movimentos independentistas das colónias africanas e, que durara 48 anos.

  Era um acontecimento ímpar, inédito, fantástico, a Democracia! Uma mudança radical na vida das pessoas, uma euforia, uma paixão… Trocávamos cartas entusiasmadas, e eu mandava publicações, cartazes, alguns destes históricos, relatos, com um entusiasmo que eles partilhavam. Por fim, meteu-se-lhes na cabeça que haviam de cá vir; vieram, ainda com muita apreensão das respetivas famílias mas un ano depois, em 75. Não havia grandes riscos, uma vez que tudo se passara (e continuava) pacificamente. Embora com algumas vacilações  numa viragem de regime tão radical, havia segurança. Mais tarde chamou-se Revolução dos Cravos, porque o povo, nesse mesmo dia, encheu os canos das espingardas com cravos vermelhos!

Foi uma excitação completa e um reforçar de uma amizade que começara e nunca mais acabou.

  As visitas continuavam com alguma frequência, conhecemos os respetivos pais, irmãos e outros amigos, e todas as terras por onde depois passámos, trabalhámos, vivemos ou passeámos.

  O nosso lema era: “Vem quando quiseres, como quiseres e com quem quiseres”. Assim,  fomos  acrescentando amigos espanhóis e portugueses, curiosidades, culturas.

  Eu escrevia cartas quilométricas… que eles liam! Escrevia igual para os dois, com papel químico, para poupar trabalho. Uma vez o Angel respondeu-me começando a sua carta assim: “Yo no me llamo Javier”. Não entendi e pedi que me explicasse. Então, o que se passou fora que eu tinha trocado a sua carta com a de não sei quem. Nunca cheguei a saber para onde mandara a sua e para quem era aquela! E, “Yo no me llamo Javier” era o nome de uma canção em voga!

   Outra vez, eu recebi um postal do Carlos, cuja conversa não entendia, parecia inacabada. Pouco tempo depois outro postal semelhante, do Angel e, depois, um terceiro, do Panther, creio. Percebi que havia uma ligação entre eles e fui tentando adivinhar. Depois de muitas tentativas descobri; hilariante!!! Os postais foram dispostos na horizontal e escritos de seguida, ao comprido. Cada linha ia do primeiro ao terceiro postal, e só faziam sentido lidos em conjunto. Respondi assim: escrevi um postal, cortei-o em três e mandei um terço para cada um! E o nosso relacionamento era sempre criativo e divertido. Seguiam pelo correio as coisas mais impensáveis!

Também tinham muita graça os trocadilhos com as palavras parecidas; uma vez, estávamos em Mallorca e fomos eu e a minha amiga Lena, mais o Carlos, os três na sua moto (!!!) a uma praia onde choveu, o que era uma raridade. De regresso, ao contarmos ao Angel, ele não entendendo, insistiu “Donde, donde llovió?” A Lena, muito perplexa, respondeu “Del cielo!”. Porque nós diríamos “onde … “ e não “donde”. Para nós, donde ou, de onde, significa de que lugar; onde, significa em que lugar.

  Com famílias, profissões, até pelas contingências da saúde, passámos a ver-nos menos mas, ainda assim, tínhamos alguns encontros. Festejámos os 25 anos da Amizade Ibérica em 1998, em Lisboa, com um Certificado de Amizade. Depois foi o encontro de Salamanca (adoro Salamanca) e, o último, creio, em Montemor-o-Velho, perto de Coimbra, cidade dos estudantes de uma das universidades mais antigas da Europa. Tivemos o privilégio de ter dois deles a tocar  guitarra de Coimbra e a cantar-nos as suas canções tradicionais de amores e desamores dedicadas às raparigas; a balada ou também chamada fado de Coimbra. E depois as nossas canções, como era habitual. E lia-se poemas, que eu gostava de escrever.

  Naquele ano de 1998, o nosso e um pouco vosso José Saramago ganhara o Prémio Nobel da Literatura, acontecimento merecido, que muito nos honrou. Também teve lugar a Expo 98 no atual Parque das Nações, numa zona ribeirinha de Lisboa , recuperada para o efeito. É hoje uma zona residencial  comercial e de lazer, moderna e muito frequentada. O encontro de Montemor-o-Velho, foi em 2005, ano em que se comemoravam os 400 anos da obra “D. Quixote de la Mancha”. O Carlos andava com um enorme e pesado saco às costas, a subir as colinas de Montemor, até chegarmos ao Centro Cultural onde jantaríamos. Tivera a gentileza de levar vários volumes da celebrada obra para oferecer a cada amigo presente!

  Em cada encontro, trocávamos livros e, aprendi com eles alguns poetas espanhóis e outra literatura, História, histórias, arte, música, entre mais saberes. Ganhei gosto pela cultura espanhola e fui conhecendo outros lugares por minha conta.

  Os nossos encontros e os nossos contactos foram sempre especiais, por mais longo que fosse o tempo de afastamento.  

   Tínhamos combinado encontrarmo-nos nesta primavera, em Portugal, mas veio a pandemia… Ficámos, aqui, em isolamento profilático, depois em confinamento, (Estado de Emergência) agora em isolamento voluntário (Situação de Calamidade). Mais coisa menos coisa. E vocês o mesmo, com outros nomes! Isolados!!!

   Eu entretenho-me a escrever, textos, poemas, até fados. Mandei alguns ao Carlos e ao Angel. O Carlos perguntou-me se podia pô-los no blog, e eu fiquei encantada. Adorei a ideia e, depois, achei que devia dar-me a conhecer! Tenho quase setenta anos, não quero desperdiçar nada. Aqui estou, pois, com todo o prazer.

                                                                                             M. Conceição Areias/ Maio 2020

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(Traducción) Cómo «caí» en el blog; Historia de una amistad ibérica.
Hay un viejo dicho popular, en Portugal, que dice: «¡Desde España ni buen viento ni buen casamiento»! (¡Esto significaba que todo lo que venía de allí, a saber, las bodas reales, podía poner en peligro la independencia nacional!)
Es un mal comienzo, lo sé, pero soy de las que les gustan los españoles. Dejad que me explique: mi padre era de un pueblo en el municipio de Elvas, pared con pared con España, a 20 km de distancia.
Hablaba bien y leía periódicos en español. Pronto me familiaricé con la cultura de nuestros hermanos. Estudié medicina, prefiriendo las traducciones al español de los grandes tratados, muy cercanos al portugués. ¡Y tía Carmen, la esposa del tío Francisco, era española!
Bueno, conocí a Carlos (del blog) y a Angel, su gran amigo, durante una estadía de verano con una amiga, en Londres, en 1973, hace casi 50 años. Nos alojamos en una colonia para estudiantes, en el mismo departamento. Sin embargo, había una peculiaridad: para que salieran de la habitación, ¡tenían que pasar la nuestra! Cuando salían temprano para trabajar, se planteaba la cuestión, o entrar sigilosamente  para no despertarnos, pero con el riesgo de pillarnos medio desnudos, o llamar a la puerta interrumpiendo un sueño merecido.
Ya no recuerdo cómo se resolvió, pero la proximidad nos unió, conversaciones animadas, familiaridad.
Sin embargo, milagro: ¡tenían guitarras y yo tarareé algunas cosillas! Intercambiamos canciones, canté mucho, canciones de Zeca Afonso, que era un cantautor activista, perseguido por el régimen, encarcelado, suspendido de su profesión docente, también conocido por su hermosa voz de tenor. Y yo, de ellos, aprendí «Ay Portugal porque te quiero tanto …» entre otras cosas.
En fin, hubo paseos por los parques, pequeñas aventuras como navegar en el Támesis y siempre mucha alegría, muchas risas, mucha diversión y mucha fotografía para dar testimonio.
El final de las vacaciones no nos hizo perder el contacto, ya que había muchas fotos para intercambiar. Mantuvimos una buena correspondencia durante  ese año, y luego durante el otro.
Mientras tanto, en Portugal, el tan deseado cambio de régimen político tuvo lugar, con el golpe militar de los Capitanes, en la noche del 25 de abril de 1974, que puso fin a un régimen represivo, autoritario, desigual y colonial, que se mantenía en guerra desde 1960 contra los movimientos de independencia de las colonias africanas y, que había durado 48 años.
Fue un evento único, sin precedentes, fantástico, ¡la Democracia! Un cambio radical en la vida de las personas, una euforia, una pasión … Intercambiamos cartas entusiastas, y envié publicaciones, carteles, algunas de estas historias, informes, con un  entusiasmo del que ellos participaban. Finalmente, se les metió en la cabeza que tenían que venir aquí; y vinieron, un año después (en el 75) con mucha aprensión de sus familias. No había gran riesgo, ya que todo había sucedido pacíficamente y así continuaba. Aunque con algunas vacilaciones en un cambio tan radical, había seguridad, Más tarde se llamó la Revolución de los Claveles, porque la gente, ese mismo día, ¡llenó los cañones de sus fusiles con claveles rojos!
  Fue una emoción completa y un refuerzo de una amistad que había comenzado y nunca más ha terminado.
Las visitas continuaron con cierta frecuencia, conocimos a sus padres, hermanos y otros amigos, y todas las tierras por donde pasamos, trabajamos, vivimos o paseamos.
Nuestro lema era: «Ven cuando quieras, como quieras y con quien quieras». Así, agregamos amigos, curiosidades, culturas españolas y portuguesas.
Escribí cartas kilométricas … ¡que leyeron! Escribía lo mismo para ambos, con papel carbón, para ahorrar trabajo. Angel una vez me respondió comenzando su carta así: «Yo no me llamo Javier». No entendí y le pedí que me lo explicara. Lo que sucedió fue que había intercambiado su carta con la de no sé quién. ¡Nunca supe dónde había enviado la suya y para quién era! Y, «Yo no me llamo Javier» era el nombre de una canción de moda!
En otra ocasión, recibí una postal de Carlos, cuya conversación no entendí, parecía inacabada. Poco después, otra postal similar, de Angel y luego una tercera, de Panther, creo. Me di cuenta de que había una conexión entre ellos y fui tratando de resolverlo. Después de muchos intentos lo descubrí; ¡¡¡divertidísimo!!! Las postales había sido puestas horizontalmente y luego escritas. Cada línea iba de la primera a la tercera postal, y solo tenía sentido cuando se leían juntas. Respondí: escribí una postal, la corté en tres y envié una tercera parte a cada uno. Y nuestra relación siempre fue creativa y divertida. ¡Nos mandábamos por correo las cosas más increíbles!
Los juegos de palabras con vocablos  similares entre los dos idiomas también fueron muy divertidos; una vez, estando en Mallorca  mi amiga Lena y yo, además de Carlos, fuimos los tres en su moto (!!!) a una playa donde llovió, lo cual era una rareza. En el camino de regreso, cuando se lo dijimos a Ángel, él no entendió, insistió «¿Dónde, dónde llovió?» Lena, muy perpleja, respondió «¡del cielo!». Porque en portugués diríamos «onde …» y no «dónde». Para nosotros, dónde o desde dónde significa desde qué lugar; onde, significa en qué lugar.
Por cuestiones de familias, profesiones, o incluso de salud, comenzamos a vernos menos, pero aun así, tuvimos algunas reuniones. Celebramos el 25 aniversario de la Amistad Ibérica en 1998, en Lisboa, con un Certificado de Amistad. Luego hubo la reunión en Salamanca (adoro Salamanca) y la última, creo, en Montemor-o-Velho, cerca de Coimbra, la ciudad de estudiantes en una de las universidades más antiguas de Europa. Tuvimos el privilegio de tener a dos de ellos tocando la guitarra de Coimbra y nos cantaron sus canciones tradicionales de amor y desamor dedicado a las chicas; la balada  también llamada fado de Coimbra. Y luego nuestras canciones, como siempre. Y leímos poemas, que me gustaba escribir.
En ese año de 1998, nuestro -y un poco vuestro- José Saramago ganó el Premio Nobel de Literatura, un evento merecido, que nos honró mucho. La Expo 98 también tuvo lugar en el actual Parque das Nações, en una zona ribereña de Lisboa, recuperada para este propósito. Ahora es una zona residencial comercial y de ocio, moderna y muy popular. La reunión de Montemor-o-Velho tuvo lugar en 2005, año en que se conmemoraban los  400 años de “D. Quijote de la Mancha «. Carlos caminó con una enorme y pesada bolsa en su espalda, subiendo las colinas de Montemor, hasta que llegamos al Centro Cultural donde cenábamos. ¡Había tenido la gentileza de llevar varios volúmenes del  celebrado libro para regalárselo a cada amigo presente!
En cada reunión, intercambiamos libros y aprendí de ellos sobre algunos poetas españoles y otra literatura, historia, cuentos, arte, música, entre otros conocimientos. Aumentó mi gusto por  la cultura española y conocí otros lugares por mi cuenta.
  Nuestras reuniones y contactos siempre fueron especiales, sin importar cuánto durara la ausencia.
 Habíamos acordado reunirnos esta primavera, en Portugal, pero llegó la pandemia … Estábamos aquí en aislamiento profiláctico, luego en confinamiento, (Estado de emergencia) ahora en aislamiento voluntario (Situación de calamidad). Más o menos. ¡Y vosotros estáis  igual, con otros nombres! ¡¡¡Aislados !!!
  Me divierte escribir, textos, poemas, incluso fados. Envié algunos a Carlos y Angel. Carlos me preguntó si podía publicarlos en el blog, y quedé encantada. ¡Me gustó mucho la idea y luego pensé que debía presentarme! Tengo casi setenta años, no quiero desperdiciar nada. Así que aquí estoy, con mucho gusto.

                                                                                             M. Conceição Areias/ Mayo 2020

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